O mundo parece estar sempre em chamas — crises, notícias urgentes, problemas que se sobrepõem uns aos outros. Mas, de vez em quando, surgem histórias pequenas em escala e gigantes em significado. Histórias que não resolvem o mundo, mas nos lembram por que ainda vale a pena habitá‑lo.
Uma dessas histórias atende pelo nome de Anna Possi, carinhosamente chamada de Nonna Anna — a barista mais velha da Itália e, muito provavelmente, do mundo.
Nonna Anna e o Bar Centrale
No pequeno vilarejo de Nebbiuno, no norte da Itália, com vista para o belíssimo Lago Maggiore, existe um café sem site, sem Instagram, sem presença digital. Apenas uma porta aberta todos os dias e uma senhora atrás do balcão. É ali que funciona o Bar Centrale, o coração da comunidade local.
Anna Possi começou a trabalhar no café em 1958, ao lado do marido. Após a morte dele, em 1974, ela seguiu sozinha — e assim permanece até hoje. São mais de 80 anos dedicados ao café, atravessando a Segunda Guerra Mundial, mudanças culturais profundas e gerações inteiras de clientes.
Hoje, aos 101 anos, Nonna Anna continua tirando cafés, servindo cervejas, conversando com fregueses e mantendo viva uma rotina que muitos julgariam impossível.
Um café que é ponto de encontro.
Para Nonna Anna, o Bar Centrale nunca foi apenas um bar.
“Aqui é como uma família. As pessoas vêm não só para tomar café, mas para conversar, pedir ajuda, compartilhar a vida.”
Clientes entram para resolver pequenas tarefas do dia a dia, pedir favores, deixar recados. Avós que antes eram crianças sentadas nos bancos agora voltam com seus netos. O café funciona como um ponto de encontro social, algo cada vez mais raro.
Enquanto o mundo acelera, ela se move no ritmo da vila: tranquilo, mas nunca lento.
A rotina incansável de uma centenária
Desde 1958, Nonna Anna abre o café às 7h da manhã, faça sol ou faça neve. Fecha às 19h no inverno e às 21h no verão, 365 dias por ano. Mesmo oficialmente aposentada desde 1984, ela nunca deixou o balcão.
Seu último feriado de verdade? Uma viagem de apenas oito dias a Paris, nos anos 1950.
“Por que eu pararia?”, pergunta ela. “Este bar é a minha vida.”
No balcão, os preços são modestos: um espresso custa cerca de €1,20, um cappuccino €1,50. Em noites mais calmas, o caixa mal chega a €40. Somada à pensão mensal, é uma vida simples — mas cheia de sentido.
Café, trabalho e propósito
Existe quem veja essa história com um olhar duro, interpretando‑a como alguém forçado a trabalhar em idade avançada. Mas há outra leitura possível — e talvez mais justa.
A de uma mulher que escolheu permanecer ativa, porque o trabalho a conecta às pessoas, à rotina, à vida. Um exemplo raro de longevidade associada a propósito, pertencimento e prazer em servir.
Nonna Anna não fala de dinheiro quando fala de café. Fala de gente.
“Não preciso de muito. O importante é estar rodeada de pessoas. Assim eu me sinto bem.”
Um símbolo da cultura do café italiano
A história de Nonna Anna também revela uma preocupação maior: o futuro dos cafés tradicionais na Itália. O número de estabelecimentos familiares diminui ano após ano, pressionados por jornadas longas, baixos rendimentos e aumento dos custos.
Ainda assim, os cafés continuam sendo o pulso da vida italiana — do espresso rápido pela manhã ao aperitivo no fim do dia. Em Nebbiuno, o Bar Centrale é mais do que um negócio: é memória viva.
Quando o café fica vazio, Nonna Anna se senta e tricota. Observa o silêncio, comenta como as pessoas agora olham mais para os telemóveis do que umas para as outras — e segue, firme.
Se você estiver por perto, vale a parada:📍 Via Torino, 4, 28010 Nebbiuno (NO), Itália
Uma história que vale ser contada
Nonna Anna sabe que, quando ela se for, o Bar Centrale provavelmente fechará. Sua filha ajuda ocasionalmente, mas não pretende assumir o negócio. Mesmo assim, ela não se prende a lamentos. Apenas continua.
Aos 101 anos, com saúde invejável, humor afiado e mãos firmes, Anna Possi é um lembrete poderoso de que viver bem é, muitas vezes, continuar fazendo aquilo que dá sentido aos dias.
Não é uma história urgente. Não é uma manchete global. Mas é uma história essencial.
Uma xícara de café por vez.
Um convite ao ritual do café
A história de Nonna Anna nos lembra que café nunca foi apenas bebida. É pausa, encontro, presença. Um gesto repetido todos os dias que, com o tempo, vira ritual — e é justamente nesse ritual que a vida acontece.
Que tal desacelerar um pouco hoje? Preparar o café com atenção, sentir o aroma, escolher a xícara com carinho e aproveitar o momento, sem pressa. Assim como Nonna Anna faz há décadas: uma xícara por vez, com intenção.
Porque talvez o segredo não esteja em viver mais depressa, mas em viver bem os pequenos rituais diários.
Se for para escolher um café para esse momento, que seja um café feito com tempo, cuidado e história — como todo ritual merece.
beijinhos,
Verena Café.